quarta-feira, 22 de setembro de 2010

22-09-2010 - Mulher invisível

Poucas coisas são, para mim, tão desconfortáveis quanto se sentir invisível e irrelevante. Talvez por isso (o tamanho e ser mulher nunca ajudaram) tenha sempre brigado tanto na vida para que a minha voz fosse efetivamente ouvida.

Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1994, lembro-me claramente de, ao responder alguma pergunta difícil em sala de aula, ter sido diminuída (escrotizada, sorry, seria a melhor palavra) por um colega de classe usando como tema do bulling o fato de eu vir do interior (eu morava em Teresópolis, onde muitos dos meus colegas cariocas-Zona Sul tinham casa de fim de semana; era, portanto, a clássica "minhoca").

Desde então, muita coisa aconteceu e eu virei, em alguma medida, também uma carioca-Zona Sul. Relativamente encaixada no padrão, relativamente confortável no perfil "cult bacaninha", ou "burguesia folclórica", ou como se queira chamar. Assim, não posso dizer que seja  desagradável aprender a roupa que vestir, o restaurante bacana, o filme romeno do momento, a festa com música sei lá de onde. Era (sou?) ouvida e vista na minha community.

Até que um dia, eu virei - novamente - invisível.

Não que as pessoas não me vejam, não que as pessoas não me tenham sorrisos, mas é como se tudo o que eu falasse soasse como irrelevante, ou não digno de mais de dois minutos de atenção. Nas aulas, essa sensação é um pouco menor, pois há algum respeito pela minha idade, pelo meu quase mestrado na ciência política. Porém, de um modo geral, não há esforços, vontade, da maioria das pessoas mais próximas, em fazer com que as conversas, os contatos, alarguem-se - emocionalmente e intelectualmente - para além de um "hooooow nice to meeeeeeeeeet you".

Passo pelo campus e me sinto um fantasma. Entro e saio das salas sem que quase ninguém fale comigo (em algumas aulas, ninguém mesmo!); nem para dizer: nossa, "Como é o Brasil?","O que está achando da faculdade?" Sei lá... 

Aliás, já sei: a sensação clara (e isso não inclui os professores, que são justo o oposto) é de que os gringos agem como se só eles tivessem a nos ensinar; e nós, aqueles pobres lá do sul, a ouvir e aprender (de preferência, sem questionar os padrões).  

Pronto: falei.

2 comentários:

  1. Ser nova em qualquer lugar é difícil mesmo, amiga. Eu quando cheguei aqui, ninguém se importava em perguntar sobre da onde eu vim o que eu fazia no Brasil, onde estudava... O estereotipo era: brasileira que arranjou um turista para casar.. A mulher importada, como se eu fosse um carro.. usado, ainda por cima!! Alguns até se assustavam que eu falasse tão bem inglês, como se dissessem:"como é possível vindo da selva que ela saiba falar outra língua". Demora até que as pessoas passem a te ver como vc realmente é, sem pré- conceitos...Os americanos são piores do que os europeus nesse sentido.. Dizem que te amam com a maior facilidade mas no fundo são super superficiais, vivem numa ostra, nem sabem da existência de outros países ou continentes ..Se acham de uma forma ou de outra superiores.... Eu até hoje não me sinto" aceita" 100 % por algumas pessoas aqui. As minhas amigas são uma espanhola, uma 50% arubana (?) e uma 50% alemã.. Holandesa 100 % só uma e mesmo assim quando ela está com as outras amigas holandesas eu viro meio que um bichinho de estimação : " Olha a minha amiga brasileira, que fala tão bem holandês..Nem parece que é estrangeira"... deve ser por isso..Não se preocupe em ser aceita, curta a sua estadia ai, aproveite! Beijinhos, Nanda

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  2. Vou ser sincera: eu te admiro muito, muito muito pela "sobrevivência com felicidade" tantos anos nestas circunstâncias. Confesso a você que me sinto 24 horas por dia não apropriada...E é muito estranho o jeito como eles lidam com você, como se fosse a melhor amiga, sorrisos, depois é como se nunca tivessem te visto. E tem os que olham como se vc nada tivesse a acrescentar. Mas, enfim, vou dando meus jeitinhos e curtindo toda a vastidão que a universidade me oferece. E tentando pensar: azar o deles! :o)

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