sexta-feira, 17 de setembro de 2010

16-09-2010 - Miséria é miséria em qualquer canto

Estou fazendo uma penca de aulas aqui na Universidade, não apenas porque achei que tinha muito a fazer, mas também porque meu tempo assim me permite. Uma delas é de pós, mas as outras quatro são de graduação, ou seja, cheias de estudantes com menos de 20 anos. Em geral, eles são bastante dedicados, leem os textos e tal. Mas, como é esperado da idade, são jovencitos, freshmen, como dizem por aqui. 

Uma das aulas que faço é com um professor "distinguished", sobre Religião&Política na América Latina. O título do professor, provavelmente, acabou atraindo para a aula um volume dominante de estudantes WASP, que pouco conhecem além dos limites de suas próprias cidades (mas, enfim, pelo menos estão interessados). O resultado disso, e aí chegamos ao ponto, foi que, em um certo momento, o professor começou a explicar o que era pobreza, "pobreza de verdade", algo que eles pareciam desconhecer.

Se assim o é, isso ocorre tão somente porque preferem não olhar para os lados. 

Meu quarto é do modelo perfeito para estudos: uma mesa para cada um, na beira da janela. O apartamento fica um pouco só acima do térreo então, enquanto escrevo aqui, comendo framboesas, um sem número de pessoas passa bem rente à minha janela para catar todas as coisas que os estudantes do prédio jogam no lixo. E isso não inclui apenas o conjunto de cadeiras que amanheceu hoje aqui do lado, mas também papelão, latas, plásticos. E não me venham dizer que todos eles são "outro tipo de pobre", uma classe de pobre acima dos que temos no Brasil, nas grandes cidades. Uma boa parte é gente que não tem emprego, que tem fome e, aqui, frio.

Por Ann Arbor há, sim, pessoas dormindo na rua; pobreza real. A cidade fica pertinho de Detroit, que sofreu horrores não apenas como a transferência das grandes montadoras de automóveis norte-americanas, mas também com a crise mais recente. A cidade vem reduzindo seu poder econômico, sua população. Não havia como poupar minha pequena cidade norte-americana-europeia, letrada e cheia de cafés, da realidade do mundo. 

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