quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Músicas daqui, de lá e de acolá

Tem música que combina. Tem música que não.

Pois bem: passei quatro dias em Toronto, no Congresso da Lasa - a Latin American Studies Association - (inclusive escrevi para a minha aula de escritas um texto narrando um pouco da aventura que foi chegar até lá desde a rodoviária de Detroit. "Posto" aqui depois). O Congresso é sempre ótimo, muitas mesas que me interessavam (sobretudo relacionando mulher e política; grupos armados, história oral contada por mulheres etc), cheio de amigos destes e de outros carnavais - acadêmicos - claro, muito espanhol nos ouvidos. Dos quatro dias em que estive abrigada em um albergue, rememorando os 20s em companhia da querida Flor, fiquei por horas a fio dentro do Sheraton, onde acontecia a conferência, entre um debate e outro.

Mas quando não estava por lá, estava andando pelas ruas de Toronto. Se tem um lugar que pode ser chamado de "multicultural" no mundo, esse lugar é Toronto. Tem gente absolutamente do mundo inteiro (o rapaz da lanchonete era do Sri Lanka!), até mesmo do... Canadá (o que é mais raro). Minha definição breve é a ideia da cebola, Toronto é a onion do Norte: sua cara só se compõe da sobreposição de um monte de gente de tudo quanto é canto. Pura imanência, com sinais de boa tolerância. E um pouco exaustiva também.

Mesmo cheia de bolhas no meu pé, andei muito pelas ruas, bazares, pelo Real Ontario Museum (não resisto a uma velharia grega ou egípcia) sempre acompanhada do meu Ipod.

Foi aí que desenvolvi a tese de que tem música que é "universal urbana"; música que é "urbana específica"; tem música que é "praia" e por aí vai. Explico: lá pelas tantas, comecei a ouvir o sensacional, estrondoso, fantástico disco no Estúdio do Arnaldo Antunes, e as músicas, todas em português, eram cosmopolitas, combinavam com a cidade, com seus sentidos múltiplos.

De repente, em pleno fruir (?), o Ipod me solta um Nei Matogrosso - que eu adoro - com "Debaixo dos Panos". A sensação de inadequação foi clara. Definiria essa canção como estilo "debaixo do Equador". Acima do Rio Grande, jamais!

Já pouco depois, caminhando um pouco mais, parei em uma loja e ouvi Perfect Day. Confesso que chorei. Era perfeita.

No dia anterior, com aquele estilo "saída de gente legal do mundo inteiro", tinha ido a um show de punk country em um bar cheio de quarentão roqueiro. Eu sou do samba!, mas me senti em casa.

Vai ver o meio faz o homem, melhor dizendo, a mulher. E a música, for sure, faz a felicidade.

Infográfico

14.10.2010 - Tiros em Ann Arbor

(Ahã, nada como um título sensacionalista, mas trata-se apenas de uma referência a Columbine). Andei sumida no meio de uma viagem aqui e outra acolá, sem dar notícias e escrevo agora rapidamente em um café Wi-Fi Free enquanto espero a hora de ir para a palestra de um indicado ao Nobel de literatura, sírio, que eu se quer conhecia. Amo isso! (o café, a internet free e ver uma palestra de um possível Nobel como se eu estivesse indo ao Farinha Pura).

Ao tema propriamente dito. Ontem levamos o Chicho a uma consulta interminável de rotina ao pediatra. Lá pelas tantas, a médica residente pergunta: "Do you have guns at home?" "Sorry?", dissemos os dois, repetindo o nosso exercício diário de não compreensão do inglês. Sim, mas ela disse exatamente isto: se nós tínhamos revólveres em casa. Milka (a residente, do Quênia), explicou-nos que era pergunta de rotina, que fazia parte do questionário. "Because everyone have guns". SOCORRO!!!

Depois este povo se pergunta sobre estes massacres...

Prosseguindo retrocedendo.

Há dois fins de semana atrás estivemos em uma viagem da bolsa mais estilo família feliz impossível (depois relato aqui o processo, mas este tema é mais importante). Lá pelas tantas, crianças correndo no gramado, maçãs nas árvores, folhas caindo e vem o grande momento do dia: caçar!!! Sim, foram todos atirar - com armas de verdade - em uns disquinhos laranjas, como se fosse a coisa mais normal do universo!

SOCORRO II! Parem o mundo, eu quero descer o Equador. Uma das co-fellows (detesto este nome) explicou - pobre, com certa vergonha, é bem verdade - que, quando estava na sexta-série, aprendeu a limpar armas na escola, "porque todo mundo tem uma e é feriado no primeiro dia de caça do ano".

Podia escrever aqui o resto do dia sobre este assunto, mas prefiro o talvez um dia Nobel (Adonis/Adunis).

"Humilde" sugestão minha para este país: mais livros e menos caças de fim de semana. Algo me diz que será melhor para todo mundo; digo, para todo o mundo.

(by moi, minutos depois)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

28-09-2010 - De mulheres, recessão e ditadura

1. From Fashionista to Recessionista - precisa dizer mais algo? Ouvi no programa da Tyra, minha dose diária de futilidade quando almoço em casa, e ADOREI! Descobri que há um movimento enorme na internet. É um tome de mulher mostrando como ficar linda com US$ 10 que vocês nem imaginam... É isso aí: fim da ditadura dos preços altos.

2. Por falar em mulheres e ditadura, frase da minha atual ídola, Maria Cotera, feminista professora de Women Studies, justificando o atraso para as questões de raça e gênero entrarem na pauta: "Quando os Estados Unidos estavam lutando pelos civil rights, a América Latina estava lutando contra a CIA. AMEI!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

23-09-2010 - Isso na minha terra

Anúncio de oferta de trabalho hoje no "The Michigan Daily", "edited and managed by students at the University of Michigan": 
Olha, eu não sei em terras annarborianas, mas, no Brasil, isso me soaria muuuuuuuito esquisito, ainda mais em um jornal da universidade. 

PS.: O mais curioso é que a Umich é um bastião do feminismo e de estudos da mulher.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

22-09-2010 - Mulher invisível

Poucas coisas são, para mim, tão desconfortáveis quanto se sentir invisível e irrelevante. Talvez por isso (o tamanho e ser mulher nunca ajudaram) tenha sempre brigado tanto na vida para que a minha voz fosse efetivamente ouvida.

Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1994, lembro-me claramente de, ao responder alguma pergunta difícil em sala de aula, ter sido diminuída (escrotizada, sorry, seria a melhor palavra) por um colega de classe usando como tema do bulling o fato de eu vir do interior (eu morava em Teresópolis, onde muitos dos meus colegas cariocas-Zona Sul tinham casa de fim de semana; era, portanto, a clássica "minhoca").

Desde então, muita coisa aconteceu e eu virei, em alguma medida, também uma carioca-Zona Sul. Relativamente encaixada no padrão, relativamente confortável no perfil "cult bacaninha", ou "burguesia folclórica", ou como se queira chamar. Assim, não posso dizer que seja  desagradável aprender a roupa que vestir, o restaurante bacana, o filme romeno do momento, a festa com música sei lá de onde. Era (sou?) ouvida e vista na minha community.

Até que um dia, eu virei - novamente - invisível.

Não que as pessoas não me vejam, não que as pessoas não me tenham sorrisos, mas é como se tudo o que eu falasse soasse como irrelevante, ou não digno de mais de dois minutos de atenção. Nas aulas, essa sensação é um pouco menor, pois há algum respeito pela minha idade, pelo meu quase mestrado na ciência política. Porém, de um modo geral, não há esforços, vontade, da maioria das pessoas mais próximas, em fazer com que as conversas, os contatos, alarguem-se - emocionalmente e intelectualmente - para além de um "hooooow nice to meeeeeeeeeet you".

Passo pelo campus e me sinto um fantasma. Entro e saio das salas sem que quase ninguém fale comigo (em algumas aulas, ninguém mesmo!); nem para dizer: nossa, "Como é o Brasil?","O que está achando da faculdade?" Sei lá... 

Aliás, já sei: a sensação clara (e isso não inclui os professores, que são justo o oposto) é de que os gringos agem como se só eles tivessem a nos ensinar; e nós, aqueles pobres lá do sul, a ouvir e aprender (de preferência, sem questionar os padrões).  

Pronto: falei.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

21-09-2010 - Diferenças curtas (ou nem tanto)

  • RELAÇÃO COM A COMIDA (E A BEBIDA) - Os habitantes da Universidade de Michigan andam o tempo todo carregando comida e uma garrafinha de água que varia em tamanho, cor e frescura. Como os cachorros, cada uma revela muito do seu dono. Além disso, como as aulas não deixam um horário fixo para almoço, comem ao longo das próprias aulas, ou seja, lá pelas tantas, neguinho saca a marmita e tome de comer arroz, salada (ainda não vi carne) e, claro, sanduíche, enquanto discute o papel da etnografia (mas ninguém fala de boca aberta - Vide ponto 3);
  • RELAÇÃO COM O CALOR - Dizem que é só chover para carioca tirar o sobretudo do armário. Os habitantes da Universidade de Michigan tem uma relação um pouco diferente: eles não entendem que há fases do ano (como agora) em que há um frio relativo (uns 15,20 graus, calculo). Resultado: muitos saem com botas acolchoadas, cachecois, casacões e afins. Deve ser hábito, mas serve de consolo para cariocas.
  • POLITE WAY OF LIFE - Os habitantes da Universidade de Michigan são gentis praticamente o tempo todo. É um tal de desculpas para cá, obrigada para lá, com licença acolá. E sorriem docemente. Mas, atenção, disso não passa. Se alguém vem perguntar algo mais sobre sua vida pessoal, de onde veio, para onde vai e o que te trouxe até aqui, pode ter certeza, é um latino.