Tem música que combina. Tem música que não.
Pois bem: passei quatro dias em Toronto, no Congresso da Lasa - a Latin American Studies Association - (inclusive escrevi para a minha aula de escritas um texto narrando um pouco da aventura que foi chegar até lá desde a rodoviária de Detroit. "Posto" aqui depois). O Congresso é sempre ótimo, muitas mesas que me interessavam (sobretudo relacionando mulher e política; grupos armados, história oral contada por mulheres etc), cheio de amigos destes e de outros carnavais - acadêmicos - claro, muito espanhol nos ouvidos. Dos quatro dias em que estive abrigada em um albergue, rememorando os 20s em companhia da querida Flor, fiquei por horas a fio dentro do Sheraton, onde acontecia a conferência, entre um debate e outro.
Mas quando não estava por lá, estava andando pelas ruas de Toronto. Se tem um lugar que pode ser chamado de "multicultural" no mundo, esse lugar é Toronto. Tem gente absolutamente do mundo inteiro (o rapaz da lanchonete era do Sri Lanka!), até mesmo do... Canadá (o que é mais raro). Minha definição breve é a ideia da cebola, Toronto é a onion do Norte: sua cara só se compõe da sobreposição de um monte de gente de tudo quanto é canto. Pura imanência, com sinais de boa tolerância. E um pouco exaustiva também.
Mesmo cheia de bolhas no meu pé, andei muito pelas ruas, bazares, pelo Real Ontario Museum (não resisto a uma velharia grega ou egípcia) sempre acompanhada do meu Ipod.
Foi aí que desenvolvi a tese de que tem música que é "universal urbana"; música que é "urbana específica"; tem música que é "praia" e por aí vai. Explico: lá pelas tantas, comecei a ouvir o sensacional, estrondoso, fantástico disco no Estúdio do Arnaldo Antunes, e as músicas, todas em português, eram cosmopolitas, combinavam com a cidade, com seus sentidos múltiplos.
De repente, em pleno fruir (?), o Ipod me solta um Nei Matogrosso - que eu adoro - com "Debaixo dos Panos". A sensação de inadequação foi clara. Definiria essa canção como estilo "debaixo do Equador". Acima do Rio Grande, jamais!
Já pouco depois, caminhando um pouco mais, parei em uma loja e ouvi Perfect Day. Confesso que chorei. Era perfeita.
No dia anterior, com aquele estilo "saída de gente legal do mundo inteiro", tinha ido a um show de punk country em um bar cheio de quarentão roqueiro. Eu sou do samba!, mas me senti em casa.
Vai ver o meio faz o homem, melhor dizendo, a mulher. E a música, for sure, faz a felicidade.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
14.10.2010 - Tiros em Ann Arbor
(Ahã, nada como um título sensacionalista, mas trata-se apenas de uma referência a Columbine). Andei sumida no meio de uma viagem aqui e outra acolá, sem dar notícias e escrevo agora rapidamente em um café Wi-Fi Free enquanto espero a hora de ir para a palestra de um indicado ao Nobel de literatura, sírio, que eu se quer conhecia. Amo isso! (o café, a internet free e ver uma palestra de um possível Nobel como se eu estivesse indo ao Farinha Pura).
Ao tema propriamente dito. Ontem levamos o Chicho a uma consulta interminável de rotina ao pediatra. Lá pelas tantas, a médica residente pergunta: "Do you have guns at home?" "Sorry?", dissemos os dois, repetindo o nosso exercício diário de não compreensão do inglês. Sim, mas ela disse exatamente isto: se nós tínhamos revólveres em casa. Milka (a residente, do Quênia), explicou-nos que era pergunta de rotina, que fazia parte do questionário. "Because everyone have guns". SOCORRO!!!
Depois este povo se pergunta sobre estes massacres...
Prosseguindo retrocedendo.
Há dois fins de semana atrás estivemos em uma viagem da bolsa mais estilo família feliz impossível (depois relato aqui o processo, mas este tema é mais importante). Lá pelas tantas, crianças correndo no gramado, maçãs nas árvores, folhas caindo e vem o grande momento do dia: caçar!!! Sim, foram todos atirar - com armas de verdade - em uns disquinhos laranjas, como se fosse a coisa mais normal do universo!
SOCORRO II! Parem o mundo, eu quero descer o Equador. Uma das co-fellows (detesto este nome) explicou - pobre, com certa vergonha, é bem verdade - que, quando estava na sexta-série, aprendeu a limpar armas na escola, "porque todo mundo tem uma e é feriado no primeiro dia de caça do ano".
Podia escrever aqui o resto do dia sobre este assunto, mas prefiro o talvez um dia Nobel (Adonis/Adunis).
"Humilde" sugestão minha para este país: mais livros e menos caças de fim de semana. Algo me diz que será melhor para todo mundo; digo, para todo o mundo.
Ao tema propriamente dito. Ontem levamos o Chicho a uma consulta interminável de rotina ao pediatra. Lá pelas tantas, a médica residente pergunta: "Do you have guns at home?" "Sorry?", dissemos os dois, repetindo o nosso exercício diário de não compreensão do inglês. Sim, mas ela disse exatamente isto: se nós tínhamos revólveres em casa. Milka (a residente, do Quênia), explicou-nos que era pergunta de rotina, que fazia parte do questionário. "Because everyone have guns". SOCORRO!!!
Depois este povo se pergunta sobre estes massacres...
Prosseguindo retrocedendo.
Há dois fins de semana atrás estivemos em uma viagem da bolsa mais estilo família feliz impossível (depois relato aqui o processo, mas este tema é mais importante). Lá pelas tantas, crianças correndo no gramado, maçãs nas árvores, folhas caindo e vem o grande momento do dia: caçar!!! Sim, foram todos atirar - com armas de verdade - em uns disquinhos laranjas, como se fosse a coisa mais normal do universo!
SOCORRO II! Parem o mundo, eu quero descer o Equador. Uma das co-fellows (detesto este nome) explicou - pobre, com certa vergonha, é bem verdade - que, quando estava na sexta-série, aprendeu a limpar armas na escola, "porque todo mundo tem uma e é feriado no primeiro dia de caça do ano".
"Humilde" sugestão minha para este país: mais livros e menos caças de fim de semana. Algo me diz que será melhor para todo mundo; digo, para todo o mundo.
(by moi, minutos depois)
Infos Wiki: http://en.wikipedia.org/wiki/Adunis
terça-feira, 28 de setembro de 2010
28-09-2010 - De mulheres, recessão e ditadura
1. From Fashionista to Recessionista - precisa dizer mais algo? Ouvi no programa da Tyra, minha dose diária de futilidade quando almoço em casa, e ADOREI! Descobri que há um movimento enorme na internet. É um tome de mulher mostrando como ficar linda com US$ 10 que vocês nem imaginam... É isso aí: fim da ditadura dos preços altos.
2. Por falar em mulheres e ditadura, frase da minha atual ídola, Maria Cotera, feminista professora de Women Studies, justificando o atraso para as questões de raça e gênero entrarem na pauta: "Quando os Estados Unidos estavam lutando pelos civil rights, a América Latina estava lutando contra a CIA. AMEI!
2. Por falar em mulheres e ditadura, frase da minha atual ídola, Maria Cotera, feminista professora de Women Studies, justificando o atraso para as questões de raça e gênero entrarem na pauta: "Quando os Estados Unidos estavam lutando pelos civil rights, a América Latina estava lutando contra a CIA. AMEI!
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
23-09-2010 - Isso na minha terra
Anúncio de oferta de trabalho hoje no "The Michigan Daily", "edited and managed by students at the University of Michigan":
PS.: O mais curioso é que a Umich é um bastião do feminismo e de estudos da mulher.
PS.: O mais curioso é que a Umich é um bastião do feminismo e de estudos da mulher.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
22-09-2010 - Mulher invisível
Poucas coisas são, para mim, tão desconfortáveis quanto se sentir invisível e irrelevante. Talvez por isso (o tamanho e ser mulher nunca ajudaram) tenha sempre brigado tanto na vida para que a minha voz fosse efetivamente ouvida.
Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1994, lembro-me claramente de, ao responder alguma pergunta difícil em sala de aula, ter sido diminuída (escrotizada, sorry, seria a melhor palavra) por um colega de classe usando como tema do bulling o fato de eu vir do interior (eu morava em Teresópolis, onde muitos dos meus colegas cariocas-Zona Sul tinham casa de fim de semana; era, portanto, a clássica "minhoca").
Desde então, muita coisa aconteceu e eu virei, em alguma medida, também uma carioca-Zona Sul. Relativamente encaixada no padrão, relativamente confortável no perfil "cult bacaninha", ou "burguesia folclórica", ou como se queira chamar. Assim, não posso dizer que seja desagradável aprender a roupa que vestir, o restaurante bacana, o filme romeno do momento, a festa com música sei lá de onde. Era (sou?) ouvida e vista na minha community.
Até que um dia, eu virei - novamente - invisível.
Passo pelo campus e me sinto um fantasma. Entro e saio das salas sem que quase ninguém fale comigo (em algumas aulas, ninguém mesmo!); nem para dizer: nossa, "Como é o Brasil?","O que está achando da faculdade?" Sei lá...
Aliás, já sei: a sensação clara (e isso não inclui os professores, que são justo o oposto) é de que os gringos agem como se só eles tivessem a nos ensinar; e nós, aqueles pobres lá do sul, a ouvir e aprender (de preferência, sem questionar os padrões).
Pronto: falei.
Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1994, lembro-me claramente de, ao responder alguma pergunta difícil em sala de aula, ter sido diminuída (escrotizada, sorry, seria a melhor palavra) por um colega de classe usando como tema do bulling o fato de eu vir do interior (eu morava em Teresópolis, onde muitos dos meus colegas cariocas-Zona Sul tinham casa de fim de semana; era, portanto, a clássica "minhoca").
Desde então, muita coisa aconteceu e eu virei, em alguma medida, também uma carioca-Zona Sul. Relativamente encaixada no padrão, relativamente confortável no perfil "cult bacaninha", ou "burguesia folclórica", ou como se queira chamar. Assim, não posso dizer que seja desagradável aprender a roupa que vestir, o restaurante bacana, o filme romeno do momento, a festa com música sei lá de onde. Era (sou?) ouvida e vista na minha community.
Até que um dia, eu virei - novamente - invisível.
Não que as pessoas não me vejam, não que as pessoas não me tenham sorrisos, mas é como se tudo o que eu falasse soasse como irrelevante, ou não digno de mais de dois minutos de atenção. Nas aulas, essa sensação é um pouco menor, pois há algum respeito pela minha idade, pelo meu quase mestrado na ciência política. Porém, de um modo geral, não há esforços, vontade, da maioria das pessoas mais próximas, em fazer com que as conversas, os contatos, alarguem-se - emocionalmente e intelectualmente - para além de um "hooooow nice to meeeeeeeeeet you".
Passo pelo campus e me sinto um fantasma. Entro e saio das salas sem que quase ninguém fale comigo (em algumas aulas, ninguém mesmo!); nem para dizer: nossa, "Como é o Brasil?","O que está achando da faculdade?" Sei lá...
Aliás, já sei: a sensação clara (e isso não inclui os professores, que são justo o oposto) é de que os gringos agem como se só eles tivessem a nos ensinar; e nós, aqueles pobres lá do sul, a ouvir e aprender (de preferência, sem questionar os padrões).
Pronto: falei.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
21-09-2010 - Diferenças curtas (ou nem tanto)
- RELAÇÃO COM A COMIDA (E A BEBIDA) - Os habitantes da Universidade de Michigan andam o tempo todo carregando comida e uma garrafinha de água que varia em tamanho, cor e frescura. Como os cachorros, cada uma revela muito do seu dono. Além disso, como as aulas não deixam um horário fixo para almoço, comem ao longo das próprias aulas, ou seja, lá pelas tantas, neguinho saca a marmita e tome de comer arroz, salada (ainda não vi carne) e, claro, sanduíche, enquanto discute o papel da etnografia (mas ninguém fala de boca aberta - Vide ponto 3);
- RELAÇÃO COM O CALOR - Dizem que é só chover para carioca tirar o sobretudo do armário. Os habitantes da Universidade de Michigan tem uma relação um pouco diferente: eles não entendem que há fases do ano (como agora) em que há um frio relativo (uns 15,20 graus, calculo). Resultado: muitos saem com botas acolchoadas, cachecois, casacões e afins. Deve ser hábito, mas serve de consolo para cariocas.
- POLITE WAY OF LIFE - Os habitantes da Universidade de Michigan são gentis praticamente o tempo todo. É um tal de desculpas para cá, obrigada para lá, com licença acolá. E sorriem docemente. Mas, atenção, disso não passa. Se alguém vem perguntar algo mais sobre sua vida pessoal, de onde veio, para onde vai e o que te trouxe até aqui, pode ter certeza, é um latino.
20-09-2010 - Pecando pelo excesso
Tentei de qualquer jeito achar uma imagem no google do guarda-roupa da Mônica, a dentuça, mas não fui bem sucedida. Tenho pensado muito nele desde a minha primeira ida ao Meijer, o supersupersupermercado aqui de Ann Arbor, onde só chego de ônibus. Uma amiga que mora em NY já tinha me alertado do desafio de fazer uma simples compra de comida nos Estados Unidos. Escolher um cereal é uma tarefa que leva mais de 15 minutos, porque há mais de 30 marcas... O mesmo esforço se repete para absolutamente qualquer item: café, arroz, ovo (grande x pequeno, com isso x sem aquilo etc), carne, congelado, suco artificial e até mesmo guacamole (ponto positivo, comida mexicana acessível!). O resultado é um gasto de tempo enorme e uma exaustão diretamente proporcional.
Mas não é só isso... A tarefa se repete em todas as esferas. Até mesmo quando se trata da universidade. Concordemos que melhor a abundância de cursos que a carência, mas como lidar quando se tem mais de 500 (literalmente) cadeiras interessantes dentre as quais é necessário optar? Fui supersupersuperseletiva, e me sobraram cinco matérias, que viraram quatro e sei lá como vou dar conta de tanta leitura.
A biblioteca é igualmente gigante, vasta, variada, imponente. É maravilhoso poder mexer em todos aqueles livros, mas hoje levamos tão somente uma hora no processo de localizar uma edição para minha aula de cultura italiana.
Reconheço: lidar com a oferta em abundância é inicialmente fascinante, mas depois cansa demais. E tudo o que eu quero, em muitos momentos nestas terras gringas, é simplesmente não ter muitas opções: que o café seja apenas expresso ou carioca; que a maçã do amor tenha apenas versão vermelha (na minha rua tem uma loja com uns 20 tipos diferentes); que o Mônica way-of-dress ganhe da versão Barbie.
Excluiria, porém, as aulas e o cereal. Nesses casos, a variedade de ambos, ainda que me canse a beleza, tem me trazido - sobretudo da primeira - um prazer inenarrável.
Mas não é só isso... A tarefa se repete em todas as esferas. Até mesmo quando se trata da universidade. Concordemos que melhor a abundância de cursos que a carência, mas como lidar quando se tem mais de 500 (literalmente) cadeiras interessantes dentre as quais é necessário optar? Fui supersupersuperseletiva, e me sobraram cinco matérias, que viraram quatro e sei lá como vou dar conta de tanta leitura.
A biblioteca é igualmente gigante, vasta, variada, imponente. É maravilhoso poder mexer em todos aqueles livros, mas hoje levamos tão somente uma hora no processo de localizar uma edição para minha aula de cultura italiana.
Reconheço: lidar com a oferta em abundância é inicialmente fascinante, mas depois cansa demais. E tudo o que eu quero, em muitos momentos nestas terras gringas, é simplesmente não ter muitas opções: que o café seja apenas expresso ou carioca; que a maçã do amor tenha apenas versão vermelha (na minha rua tem uma loja com uns 20 tipos diferentes); que o Mônica way-of-dress ganhe da versão Barbie.
Excluiria, porém, as aulas e o cereal. Nesses casos, a variedade de ambos, ainda que me canse a beleza, tem me trazido - sobretudo da primeira - um prazer inenarrável.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
16-09-2010 - Miséria é miséria em qualquer canto
Estou fazendo uma penca de aulas aqui na Universidade, não apenas porque achei que tinha muito a fazer, mas também porque meu tempo assim me permite. Uma delas é de pós, mas as outras quatro são de graduação, ou seja, cheias de estudantes com menos de 20 anos. Em geral, eles são bastante dedicados, leem os textos e tal. Mas, como é esperado da idade, são jovencitos, freshmen, como dizem por aqui.
Uma das aulas que faço é com um professor "distinguished", sobre Religião&Política na América Latina. O título do professor, provavelmente, acabou atraindo para a aula um volume dominante de estudantes WASP, que pouco conhecem além dos limites de suas próprias cidades (mas, enfim, pelo menos estão interessados). O resultado disso, e aí chegamos ao ponto, foi que, em um certo momento, o professor começou a explicar o que era pobreza, "pobreza de verdade", algo que eles pareciam desconhecer.
Se assim o é, isso ocorre tão somente porque preferem não olhar para os lados.
Meu quarto é do modelo perfeito para estudos: uma mesa para cada um, na beira da janela. O apartamento fica um pouco só acima do térreo então, enquanto escrevo aqui, comendo framboesas, um sem número de pessoas passa bem rente à minha janela para catar todas as coisas que os estudantes do prédio jogam no lixo. E isso não inclui apenas o conjunto de cadeiras que amanheceu hoje aqui do lado, mas também papelão, latas, plásticos. E não me venham dizer que todos eles são "outro tipo de pobre", uma classe de pobre acima dos que temos no Brasil, nas grandes cidades. Uma boa parte é gente que não tem emprego, que tem fome e, aqui, frio.
Por Ann Arbor há, sim, pessoas dormindo na rua; pobreza real. A cidade fica pertinho de Detroit, que sofreu horrores não apenas como a transferência das grandes montadoras de automóveis norte-americanas, mas também com a crise mais recente. A cidade vem reduzindo seu poder econômico, sua população. Não havia como poupar minha pequena cidade norte-americana-europeia, letrada e cheia de cafés, da realidade do mundo.
Uma das aulas que faço é com um professor "distinguished", sobre Religião&Política na América Latina. O título do professor, provavelmente, acabou atraindo para a aula um volume dominante de estudantes WASP, que pouco conhecem além dos limites de suas próprias cidades (mas, enfim, pelo menos estão interessados). O resultado disso, e aí chegamos ao ponto, foi que, em um certo momento, o professor começou a explicar o que era pobreza, "pobreza de verdade", algo que eles pareciam desconhecer.
Se assim o é, isso ocorre tão somente porque preferem não olhar para os lados.
Meu quarto é do modelo perfeito para estudos: uma mesa para cada um, na beira da janela. O apartamento fica um pouco só acima do térreo então, enquanto escrevo aqui, comendo framboesas, um sem número de pessoas passa bem rente à minha janela para catar todas as coisas que os estudantes do prédio jogam no lixo. E isso não inclui apenas o conjunto de cadeiras que amanheceu hoje aqui do lado, mas também papelão, latas, plásticos. E não me venham dizer que todos eles são "outro tipo de pobre", uma classe de pobre acima dos que temos no Brasil, nas grandes cidades. Uma boa parte é gente que não tem emprego, que tem fome e, aqui, frio.
Por Ann Arbor há, sim, pessoas dormindo na rua; pobreza real. A cidade fica pertinho de Detroit, que sofreu horrores não apenas como a transferência das grandes montadoras de automóveis norte-americanas, mas também com a crise mais recente. A cidade vem reduzindo seu poder econômico, sua população. Não havia como poupar minha pequena cidade norte-americana-europeia, letrada e cheia de cafés, da realidade do mundo.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
15-09-2010 - Destes e de outros cinemas
Desde que cheguei aqui e vi que, na minha esquina, havia um cinema daqueles lindos, estou paquerando a bilheteria do Michigan Theater. Na terça-feira, teve até exibição de "Metropolis" com piano ao vivo!
Não consegui ir a esta, mas achei que "L'affair farewell" ou só Farewell, como é aqui, seria uma boa opção.
Sobre o filme, recomendo. Deu um certo trabalho, tendo em vista que ele é falado em russo, francês e inglês, e isso me exigia mudar o botão a todo momento, mas deu para ter a noção geral. Trata da guerra fria e é bem interessante, incluindo aí a reconstrução de Moscou no finzinho do regime.
Mas o que é mais digno de nota é o cinema per se.
Sou absolutamente vidrada no Cidades Invisíveis, do Italo Calvino. Um dos contos dele fala que, sempre que estamos falando sobre qualquer lugar, na verdade, estamos falando sobre a nossa cidade. Não me lembro quem sempre comentava comigo que detestava esta mania de dizer, por exemplo, que tal fruta lembra aquela, mas é mais ácida. De minha parte, acho que sempre temos lá nossas referências afetivas. E, partindo delas, observamos o mundo.
Feito o preâmbulo, meu cinema na esquina, onde cheguei em literalmente dois minutos, tem a estrutura idêntica ao de Barra do Piraí, onde morei por tantos anos. Juro! As três colunas e dois corredores, com cadeiras a perder de vista, o balcão acima, a semi-inclinação, a pompa. Na verdade, o daqui é fabuloso, o de lá era decadente (tanto que virou uma Igreja Universal). Descobri que foi construído em 1928, tem mais de 1.000 lugares e tem esta estrutura porque comportava a orquestra que acompanhava os filmes mudos.
Porém, entrar no cinema de Ann Arbor, fez-me recordar as tardes de sexta-feira, a pipoca com manteiga, os filmes que já haviam saído de cartaz no Rio. Ludmila, Vivi, Cris, Osvaldo, Mari, Laure, Flavinho(s), Leo, Pablo, Luciano, Geraldo, Fernanda, Bia, Nane, Luca etc etc etc etc.
Nada como o cinema! Foi bom me sentir em casa.
Não consegui ir a esta, mas achei que "L'affair farewell" ou só Farewell, como é aqui, seria uma boa opção.Sobre o filme, recomendo. Deu um certo trabalho, tendo em vista que ele é falado em russo, francês e inglês, e isso me exigia mudar o botão a todo momento, mas deu para ter a noção geral. Trata da guerra fria e é bem interessante, incluindo aí a reconstrução de Moscou no finzinho do regime.
Mas o que é mais digno de nota é o cinema per se.
Sou absolutamente vidrada no Cidades Invisíveis, do Italo Calvino. Um dos contos dele fala que, sempre que estamos falando sobre qualquer lugar, na verdade, estamos falando sobre a nossa cidade. Não me lembro quem sempre comentava comigo que detestava esta mania de dizer, por exemplo, que tal fruta lembra aquela, mas é mais ácida. De minha parte, acho que sempre temos lá nossas referências afetivas. E, partindo delas, observamos o mundo.
Feito o preâmbulo, meu cinema na esquina, onde cheguei em literalmente dois minutos, tem a estrutura idêntica ao de Barra do Piraí, onde morei por tantos anos. Juro! As três colunas e dois corredores, com cadeiras a perder de vista, o balcão acima, a semi-inclinação, a pompa. Na verdade, o daqui é fabuloso, o de lá era decadente (tanto que virou uma Igreja Universal). Descobri que foi construído em 1928, tem mais de 1.000 lugares e tem esta estrutura porque comportava a orquestra que acompanhava os filmes mudos.
Porém, entrar no cinema de Ann Arbor, fez-me recordar as tardes de sexta-feira, a pipoca com manteiga, os filmes que já haviam saído de cartaz no Rio. Ludmila, Vivi, Cris, Osvaldo, Mari, Laure, Flavinho(s), Leo, Pablo, Luciano, Geraldo, Fernanda, Bia, Nane, Luca etc etc etc etc.
Nada como o cinema! Foi bom me sentir em casa.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
14-09-2010 - Ídolo nacional
Qualquer brasileiro que viaje para fora do país sabe que o nome mais lembrado quando se trata de Brasil, fatalmente, estará relacionado com futebol... Então é só falar que é do Brasil para começar: Kaká, Ronaldinho, Robinho e, claro, Pelé.
Contudo, entretanto, todavia, no único país em que futebol é soccer, não foi exatamente assim que ocorreu. Na universitária Ann Arbor, o brasileiro sobre quem mais ouvi agora como referência foi Paulo Freire. Felizmente, conhecia o nome, sabia algo sobre a Pedagogia do Oprimido, mas, que vergonha!, parava por aí meu conhecimento do conterrâneo mais famoso por estas terras. Confesso que temi quando o professor citou, olhando para mim, o método educacional. Pensei: "pqp, nesta turma de graduação, vai ser um mico eu dizer que não sei nada sobre!"
Por via das dúvidas, já fui ao Wikipedia. E achei este lindo painel acima.
Contudo, entretanto, todavia, no único país em que futebol é soccer, não foi exatamente assim que ocorreu. Na universitária Ann Arbor, o brasileiro sobre quem mais ouvi agora como referência foi Paulo Freire. Felizmente, conhecia o nome, sabia algo sobre a Pedagogia do Oprimido, mas, que vergonha!, parava por aí meu conhecimento do conterrâneo mais famoso por estas terras. Confesso que temi quando o professor citou, olhando para mim, o método educacional. Pensei: "pqp, nesta turma de graduação, vai ser um mico eu dizer que não sei nada sobre!"
Por via das dúvidas, já fui ao Wikipedia. E achei este lindo painel acima.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
13-09-2010 - O primeiro dia de aula
Em 1997, minha mãe se mudou para o Humaitá e eu com ela. Apesar de um breve lapso na Urca, desde então, vivo naquele quadrado que vai da Conde de Irajá até o Túnel Rebouças. Isso posto, achei que, pela primeira vez, estando a milhares de quilômetros, minha emocionante vida particular seria intrigante. No way, man!
Na minha primeira aula, de escritos e filmes etnográficos, a turma, além dos estadunidenses, era composta por gente do Nepal, da Índia, das Filipinas, do Iraque. Mas havia também segundas gerações de colombianos, panamenhos, jamaicanos. A ONU inteira. E gente para todos os gostos: gay, menininha, gordo, bonita, lésbica, mais velhos, mais novos e a sem novidade aqui. Aí pergunto eu: em que momento esta nação, composta por tanta mistura (nunca, em sala alguma em que estudei, vi tanta cor e tamanho), vira aquele outro monstro horrível, cheio de preconceito e restrições étnicas que a gente conhece?
Fiquei pensando também como aqui ninguém é daqui. A professora mesmo, uma escritora magnífica chamada Ruth Behar, é de origem cubana.
Intriguei-me com esta história da mistura a aula inteira enquanto ouvia cada um contar um pouco das suas histórias mirabolantes. Ainda não tenho nenhuma resposta razoável. Por ora, só sei dizer que gostei disto de me sentir tão igual e tão estranha como os demais. Taí: a primeira aula de etnografia já me serviu para algo.
PS.: Por uma falha grave, tirei a máquina da bolsa. Mas a foto do dia seria a bandeira dos Estados Unidos tremulando no campus, com o céu azul no fundo e o gramado verdinho (nele, uma mulher de shador, umas "patys" lanchando e os orientais de praxe). Não é que estava bonita a cena?
Na minha primeira aula, de escritos e filmes etnográficos, a turma, além dos estadunidenses, era composta por gente do Nepal, da Índia, das Filipinas, do Iraque. Mas havia também segundas gerações de colombianos, panamenhos, jamaicanos. A ONU inteira. E gente para todos os gostos: gay, menininha, gordo, bonita, lésbica, mais velhos, mais novos e a sem novidade aqui. Aí pergunto eu: em que momento esta nação, composta por tanta mistura (nunca, em sala alguma em que estudei, vi tanta cor e tamanho), vira aquele outro monstro horrível, cheio de preconceito e restrições étnicas que a gente conhece?
Fiquei pensando também como aqui ninguém é daqui. A professora mesmo, uma escritora magnífica chamada Ruth Behar, é de origem cubana.
Intriguei-me com esta história da mistura a aula inteira enquanto ouvia cada um contar um pouco das suas histórias mirabolantes. Ainda não tenho nenhuma resposta razoável. Por ora, só sei dizer que gostei disto de me sentir tão igual e tão estranha como os demais. Taí: a primeira aula de etnografia já me serviu para algo.
PS.: Por uma falha grave, tirei a máquina da bolsa. Mas a foto do dia seria a bandeira dos Estados Unidos tremulando no campus, com o céu azul no fundo e o gramado verdinho (nele, uma mulher de shador, umas "patys" lanchando e os orientais de praxe). Não é que estava bonita a cena?
domingo, 12 de setembro de 2010
12-09-2010 - I wanna know if you'll be my girl
Não, está foto não retrata o concurso "garota Capricho", nem se trata do encontro anual da chapinha de Ann Arbor. Em alguns minutos, dentro desta casa, muitos berros começarão a ser ouvidos e elas vão desandar a cantar "Hey baby" (para quem se lembra, do Dirty Dance), com uma letra adaptada, fazendo uma espécie de panelaço nas janelas. Na fila, as centenas de meninas aguardam ansiosas a possibilidade de entrar. Como diz meu amigo André: how bizarre!! Sim, até os estadunidenses que nos acompanhavam acham isso.
Conversei um pouco com uma das responsáveis pelo processo... So, para explicar o inexplicável: mais de mil meninas recém-chegadas à Universidade de Michigan disputam vagas nas 15 fraternidades (em cada uma, cerca de 50 são aceitas). Esta da foto se chama DeltaGama (elas sempre têm letras gregas) e suas moradoras se vestem como marinheiras (??!!). Feitas as contas, no máximo dos máximos, 750 meninas obrigatoriamente de cabelos muito bem tratados, maquiagem intensa e roupas cool entrarão para o grupo das escolhidas. Às outras, resta o bulling.
Para uma garota ser escolhida, ela precisa agradar as demais garotas; as que já estão. Critério um tanto quanto subjetivo, convenhamos. Seus benefícios: fazer amigas e participar de festas. Detalhe: o processo é tão importante que todas as candidatas levam um livrinho, um "guia do estudante" das fraternidades. Comentei que, no Brasil, só conhecíamos as fraternidades pelos filmes, e a loira estilo Kelly Taylor me respondeu: "Mas nós não somos tão más assim, não torturamos as calouras".
Hum... sei não...
Conversei um pouco com uma das responsáveis pelo processo... So, para explicar o inexplicável: mais de mil meninas recém-chegadas à Universidade de Michigan disputam vagas nas 15 fraternidades (em cada uma, cerca de 50 são aceitas). Esta da foto se chama DeltaGama (elas sempre têm letras gregas) e suas moradoras se vestem como marinheiras (??!!). Feitas as contas, no máximo dos máximos, 750 meninas obrigatoriamente de cabelos muito bem tratados, maquiagem intensa e roupas cool entrarão para o grupo das escolhidas. Às outras, resta o bulling.
Para uma garota ser escolhida, ela precisa agradar as demais garotas; as que já estão. Critério um tanto quanto subjetivo, convenhamos. Seus benefícios: fazer amigas e participar de festas. Detalhe: o processo é tão importante que todas as candidatas levam um livrinho, um "guia do estudante" das fraternidades. Comentei que, no Brasil, só conhecíamos as fraternidades pelos filmes, e a loira estilo Kelly Taylor me respondeu: "Mas nós não somos tão más assim, não torturamos as calouras".
Hum... sei não...
11-09-2010 - Jantar dançante
11 de setembro de 2010, e eu nos Estados Unidos, com um dia de chegada. Estava esperando o dia da comoção batendo a minha porta e a minha rua, mas qual o quê! Cheguei a conclusão de que lembramos mais o ocorrido no Brasil que na pequena Ann Arbor (ou, como eles dizem, Eeeein Errrbor), aliás, vizinha da falida Detroit.
Mas na América como os americanos, ou como prefeririam amigos meus: nos Estados Unidos como os estadunidenses, e a ordem do dia era: jantar dançante para conhecer os atuais bolsistas e os bolsistas de outros carnavais, digo, anos. Eu, em um jantar dançante (???!!!)
Bem, esta nação com 300 milhões de habitantes é esquisita, muito esquisita, mas, com tanta gente, há de haver gente interessante. E aí, senta que lá vem história. Sentamos ao lado de um casal de jornalistas que mora em Mississipi. Isso hoje; porque viveram 8 anos no Quênia. Um deles é professor de ciência política e dá aulas sobre África. Conhecia o trabalho de "Cardoso" (o FH) e "Dos Santos" e gostava muito do Lula. O outro, dono de galeria de arte. As pessoas sempre nos olham com aquela coisa de "how interesting" (por sermos brasileiros), e nós desandamos a contar do Brasil.
Além deles, um jornalista da AP, que mora na fronteira com o México e contava da sensação de segurança cada vez que atravessava e voltava para os EUA (lembrei que, no Rio, vivíamos- ou vivemos - tendo esta sensação). Uma russa que deixou o país e o jornalismo ao mesmo tempo e virou assistente social no Canadá.
Tive a sensação, mais uma vez, de que o mundo é enorme e pequeno ao mesmo tempo. E que os jornalistas - definitivamente - são uma espécie semelhante aonde quer que se vá.
Mas na América como os americanos, ou como prefeririam amigos meus: nos Estados Unidos como os estadunidenses, e a ordem do dia era: jantar dançante para conhecer os atuais bolsistas e os bolsistas de outros carnavais, digo, anos. Eu, em um jantar dançante (???!!!)
Bem, esta nação com 300 milhões de habitantes é esquisita, muito esquisita, mas, com tanta gente, há de haver gente interessante. E aí, senta que lá vem história. Sentamos ao lado de um casal de jornalistas que mora em Mississipi. Isso hoje; porque viveram 8 anos no Quênia. Um deles é professor de ciência política e dá aulas sobre África. Conhecia o trabalho de "Cardoso" (o FH) e "Dos Santos" e gostava muito do Lula. O outro, dono de galeria de arte. As pessoas sempre nos olham com aquela coisa de "how interesting" (por sermos brasileiros), e nós desandamos a contar do Brasil.
Além deles, um jornalista da AP, que mora na fronteira com o México e contava da sensação de segurança cada vez que atravessava e voltava para os EUA (lembrei que, no Rio, vivíamos- ou vivemos - tendo esta sensação). Uma russa que deixou o país e o jornalismo ao mesmo tempo e virou assistente social no Canadá.
Tive a sensação, mais uma vez, de que o mundo é enorme e pequeno ao mesmo tempo. E que os jornalistas - definitivamente - são uma espécie semelhante aonde quer que se vá.
Introduzindo (de leve)
Para se alguém aportar, por acaso, por estas terras cibernéticas, este site tentará contar as histórias de alguém cujo destino se programou para pregar uma peça e remetê-la do Rio de Janeiro diretamente para uma cidade do interior dos Estados Unidos; mais precisamente, no Estado de Michigan, onde as temperaturas médias no inverno são de -20°C.
Por oito meses, eu, meu marido, meu filho de dois anos e a babá viveremos em Ann Arbor (esta marcada no mapinha abaixo), onde estudaremos (eu e o marido) em uma das maiores universidades do mundo (os Esteites e sua mania de grandeza).
Desafiada por um amigo a escrever dois parágrafos por dia, não resisti em criar um blog já no segundo dia da nova cidade. Certa vez, ouvi o jornalista Luis Nachbin dizer que os Estados Unidos eram o país mais estranho por que tinha passado (ele conhece quase uma centena). Em dois dias, já estou totalmente de acordo.
Por oito meses, eu, meu marido, meu filho de dois anos e a babá viveremos em Ann Arbor (esta marcada no mapinha abaixo), onde estudaremos (eu e o marido) em uma das maiores universidades do mundo (os Esteites e sua mania de grandeza).
Desafiada por um amigo a escrever dois parágrafos por dia, não resisti em criar um blog já no segundo dia da nova cidade. Certa vez, ouvi o jornalista Luis Nachbin dizer que os Estados Unidos eram o país mais estranho por que tinha passado (ele conhece quase uma centena). Em dois dias, já estou totalmente de acordo.
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